Estudo da FMVZ revela como o desmatamento e o clima afetam as zoonoses no estado de São Paulo

Estudo revela como o desmatamento e o clima afetam as zoonoses no estado de São Paulo

Casos de febre maculosa, hantavirose, leishmaniose visceral e leptospirose estão atrelados a variáveis ambientais intensificadas pela ação humana

Agência Universitária de Notícias – 02/12/2025
Isabella Lopes

De 2001 a 2020, o estado de São Paulo registrou 14.162 casos de leptospirose [Imagem: Pixabay/Reprodução]

As alterações climáticas estão associadas à incidência de doenças zoonóticas — as quais têm transmissão entre animais e pessoas — no território paulista. É o que demonstra a tese “Impacto das mudanças climáticas na incidência de zoonoses no estado de São Paulo”, produzida por Derik Alboredo, mestre em Epidemiologia Veterinária de Saúde Única pela Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (FMVZ-USP).

Quatro enfermidades foram analisadas no período de 2001 a 2020, de acordo com a relação epidemiológica “homem-animal-meio ambiente”. São elas: febre maculosa (1.256 casos), hantavirose (257 casos), leishmaniose visceral (3.765 casos) e leptospirose (14.162 casos). Os dados foram obtidos a partir do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN).

Alboredo explica que a decisão de usar essa fonte foi guiada pela busca de um banco de dados aberto, confiável e vinculado ao Ministério da Saúde. Também foram usados números do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para entender o comportamento da população.

A febre maculosa é causada pela bactéria Rickettsia rickettsii e iniciada após a picada de um carrapato infectado. A hantavirose é ocasionada por vírus transportados e transmitidos aos seres humanos por meio de roedores. Já a leishmaniose visceral é disseminada por protozoários, os quais são propagados por meio da picada de mosquitos hematófagos fêmeas (que se alimentam de sangue). Por fim, a leptospirose é contraída pela exposição direta ou indireta à urina de animais contaminados por bactérias do gênero Leptospira.

Mudanças climáticas
As mudanças climáticas são eventos adversos ocasionados por transformações a longo prazo nos padrões de temperatura e clima. O fenômeno pode ser natural, mas as variações tornaram-se mais frequentes devido ao aumento das atividades humanas desde a segunda metade do século 18. O verão brasileiro de 2025, por exemplo, foi o segundo mais quente já registrado, com temperatura média 0,73ºC acima dos parâmetros normais.

A tese mostra que, na epidemiologia, as mudanças climáticas estão relacionadas às alterações nos ecossistemas, à suscetibilidade das populações e ao aumento da exposição de agentes causadores. O aquecimento global, por sua vez, também afeta a distribuição geográfica de vetores e hospedeiros, como seres invertebrados, roedores e aves.

Latitude, elevação, biomas predominantes, desflorestamento, temperatura atmosférica, umidade relativa do ar e precipitação — ou seja, variáveis ambientais — foram associadas à incidência anual das quatro zoonoses selecionadas, por ano e a cada cem mil habitantes. “A gente fez o levantamento de estações meteorológicas, para ligar com os dados do SINAN”, explica Derik Alboredo.

As séries temporais demonstraram que as flutuações sazonais apresentavam correspondência com as variações climáticas, o que ocasionou um aumento de casos em períodos de maior temperatura e volume de chuvas — cujo destaque se deu nas áreas de transição de biomas.

Segundo a pesquisa, os fatores de risco para a febre maculosa são as variações térmicas, o desmatamento do Cerrado e a precipitação. Em relação à hantavirose, que é associada com regiões rurais e à exposição a roedores, a latitude também demonstrou influência. No caso da leishmaniose visceral, áreas maiores — em especial as que sofreram perda da cobertura vegetal — são mais propensas à ocorrência da doença. Entretanto, outras variáveis, como temperatura, chuvas e densidade demográfica também atuaram em determinados anos estudados. Já no caso da leptospirose, fatores como o desmatamento do Cerrado e a precipitação foram preponderantes para o aumento do número de casos.

Alboredo destaca a situação das áreas periurbanas — as regiões de transição entre campo e cidade. De acordo com o especialista, as comunidades “que estão em contato com a zona de mata e o meio urbano” são mais suscetíveis a epidemias. “Elas serão as primeiras afetadas, e precisamos saber o que acontece por lá. Estamos sob um ‘guarda-chuva’, onde todos precisam trabalhar juntos para a manutenção da vida coletiva”, afirma.

Estado de São Paulo
A região paulista apresenta um panorama ecológico variado, com dois biomas principais cobrindo o território: a Mata Atlântica e o Cerrado.

A Mata Atlântica perdeu 2,4 milhões de hectares em 40 anos [Imagem: Agência Brasil/Reprodução]

De acordo com o artigo, a Mata Atlântica esteve presente em mais de 80% do estado de São Paulo. O bioma é caracterizado como tropical úmido, com grandes volumes de chuvas anuais. Já o Cerrado ocupa 14% da área paulista e apresenta vegetação savânica, com clima tropical sazonal.

Desmatamento no Cerrado caiu em 2024, mas continua elevado [Imagem: Agência Brasil/Reprodução]

Além da diversidade biológica, Derik Alboredo destaca outra característica que trouxe o enfoque do estudo para o estado: a proximidade. “É um espaço em que estamos familiarizados, tem um apelo um pouco maior nas notificações dos sistemas de saúde e é próximo de outros cientistas, que poderiam ajudar na pesquisa”, finaliza.