Pesquisa da FMVZ em parceria com UFBA: leite de jumenta pode ajudar a salvar bebês prematuros e frear abate de animais

Como o leite de jumenta pode ajudar a salvar bebês prematuros e frear abate de animais

Pesquisa concluiu que o produto reduz a liberação do hormônio do estresse e a resposta inflamatória de leitões durante desmame

Por Eliane Silva — Globo Rural, Ribeirão Preto (SP)
03/01/2026

Estudo surgiu com o objetivo de resgatar o valor do jumento no Brasil — Foto: Apta

Uma pesquisa da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da USP, em parceria com a Universidade Federal da Bahia, concluiu que o leite de jumenta, além de seu potencial uso como suplemento para bebês humanos prematuros, reduz a liberação do hormônio do estresse e a resposta inflamatória de leitões durante o período de desmame.

A pesquisa foi conduzida no Criatório Ximbó, de Laranjal Paulista (SP), por Sharacely de Souza Farias, sob orientação do professor Adroaldo José Zanella, da USP de Pirassununga, que já tinha coordenado um projeto de 6 milhões de euros, na Europa, de protocolo de bem-estar animal que incluía os jumentos.

Segundo Zanella, na Europa, especialmente na Itália, o leite de jumenta é usado para tratar crianças prematuras porque tem características muito parecidas com o leite humano. Também serve para a produção de queijos muito caros.

“Quando voltei ao Brasil e vi o cenário assustador de descaso, de jumentos sendo abatidos cruelmente para servir ao mercado chinês de colágeno, fiquei enojado"
Adroaldo Zanella
Docente da FMVZ-USP

“Trabalho na área de bem-estar animal há quase 40 anos, e a ideia da nossa pesquisa era resgatar o valor do jumento no Brasil, entendendo a qualidade do leite como forma de evitar a destruição que estamos vendo nos últimos anos de uma raça que ajudou a construir o Nordeste”, acrescentou.

O professor relatou que, inicialmente, foi feita uma pesquisa de campo no Ceará e cerca de 75% dos entrevistados responderam que usavam o leite de jumenta para fins medicinais. Isso gerou, então, o interesse de entender as propriedades medicinais do leite, cujo litro chega a custar 200 euros na Europa.

Depois de testar essas propriedades, a pesquisa foi além para estudar os efeitos do leite de jumenta na desmama de leitões, período em que esses animais enfrentam muito estresse porque desmamam naturalmente com até 12 semanas de vida, mas em criações comerciais esse período é antecipado para quatro semanas. Os leitões foram escolhidos por terem um sistema digestivo semelhante ao do ser humano.

“Alimentamos parte dos leitões com leite de jumenta, outra parte com leite de vaca desnatada e outro grupo não recebeu nada. Ao desmamar os leitões verificamos que os que receberam o leite de jumenta tinham uma resposta inflamatória atenuada e uma redução do fator de estresse.”

Zanella, um dos fundadores da Frente Nacional de Defesa dos Jumentos, afirma que seu grupo de pesquisa chegou a discutir a possibilidade de se estabelecer acesso ao leite de jumenta como instrumento medicinal por meio de pequenos criatórios no Nordeste, mas não houve avanços. A pesquisa foi interrompida na USP por falta de recursos, mas segue na Federal da Bahia com a professora Chiara Albano de Araujo Oliveira.

Características nutricionais e imunológicas
Na Universidade do Agreste de Pernambuco (Ufape), em Garanhuns, o leite de jumenta também é objeto de estudo. A expectativa dos pesquisadores é que, até 2026, o produto possa ser oferecido de forma segura para UTIs pediátricas, devido às suas qualidades terapêuticas.

Segundo o professor Gustavo Carneiro, do curso de Medicina Veterinária da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), o leite de jumenta reúne características nutricionais e imunológicas únicas.

“O produto tem grande potencial tanto no mercado nacional quanto internacional, especialmente para crianças com intolerância às proteínas do leite de vaca. Isso abre oportunidades para nichos especializados em alimentação infantil e produtos funcionais, agregando valor à produção de asininos em regiões rurais e contribuindo para o desenvolvimento de cadeias produtivas locais e para a geração de renda complementar aos produtores rurais”, disse Carneiro, acrescentando que, além de alimento, o leite pode ser transformado em derivados cosméticos.

Pesquisadores com equipe do criatório Ximbó — Foto: Divulgação

José Carlos Mendonça, dono do Criatório Ximbó, disse que a experiência em sua propriedade em Laranjal Paulista foi um sucesso, mas a coleta de leite se restringiu ao estudo.

Ele iniciou a criação de animais da raça jumento pêga em sua fazenda em 2004 e atualmente tem um plantel de 30 matrizes e oito garanhões, com destaque para Lamento da Gameleira, tricampeão da raça e grande campeão nacional, Félix do Ximbó e Coronel Bons Ventos.