Pesquisadores da FMVZ USP desenvolvem ferramentas que auxiliam produtores de suínos

Por Guilherme Gama – Publicada originalmente no Jornal da USP, em 23/07/2021 – Foto de capa: Cecília Bastos/USP Imagens

Diferente das demais regiões do Brasil, onde a produção de suínos atua em sistema de integração (diferentes sistemas produtivos, agrícolas, pecuários e florestais), a suinocultura no estado de São Paulo é composta de produtores independentes, que são responsáveis desde a produção de ração até a venda do animal. Para atender à demanda das especificidades da produção no estado, mais impactada pelas oscilações do mercado, pesquisadores da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da USP desenvolveram um modelo de cálculo de custo de produção, que oferece ao produtor uma plataforma para controlar seus custos, e o Índice de Custo de Produção de Suínos (ICPS), que permite acompanhar a evolução econômica da suinocultura paulista. O índice é divulgado por meio de um informativo mensal, com uma nova edição todo mês e aponta a movimentação do mercado, o que auxilia na organização e planejamento financeiro dos produtores.

O estudo envolve o Laboratório de Análises Socioeconômicas e Ciência Animal (LAE) e o Laboratório de Pesquisa em Suínos (LPS), ambos da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ), no campus de Pirassununga da USP, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e a Associação Paulista de Criadores de Suínos (APCS), que adotou o ICPS como índice oficial. Produtores de suínos podem adquirir as ferramentas gratuitamente, pelo site ou em contato por e-mail com os pesquisadores.

Ferreira Júnior, presidente da APC, afirma que as ferramentas criadas em parceria com a USP são importantes por corresponderem à realidade paulista, principalmente neste momento do mercado em que é preciso ter olhos atentos ao custo de produção.

Laya Kannan – Foto: Arquivo pessoal

De acordo com a autora da pesquisa e mestre pela FMVZ, Laya Kannan, a produção de suínos do estado de São Paulo é constituída por produtores independentes, que atuam em sistemas de produção em ciclo completo, ou seja, atuam diretamente desde as fases iniciais da produção até o fim, com a venda do animal. O estudo teve orientação do professor Cesar Augusto Pospissil Garbossa e co-orientação do professor Augusto Hauber Gameiro.

“Nesse arranjo organizacional, os produtores são diretamente impactados pelas oscilações mercadológicas, uma vez que o mercado da suinocultura paulista é marcado pela dependência do preço das commodities e volatilidade nos preços de venda”, afirma. Laya explica que esses fatores são de “fora da porteira”, o que revela a importância do controle do custo de produção “dentro da porteira”, por parte dos produtores para que não enfrentem baixos resultados econômicos — ou até prejuízos. 

“A suinocultura paulista enfrenta diversos desafios, devido às particularidades da produção da região, e grande parte deles está relacionada ao gerenciamento da atividade e ao uso estratégico dos fatores de produção, o que demonstra a importância do fornecimento de ferramentas e orientações básicas para que os suinocultores possam conhecer as variáveis a serem controladas em seus sistemas produtivos.”
Os modelos para cálculo de custo de produção de suínos disponíveis, até então, eram alinhados à realidade brasileira como um todo e, como destaca Laya, não levam em consideração os custos com alimentação de animais, que pode ser de até 80% da produção. O índice de Custo de Produção de Suínos e Frangos, calculado pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), por exemplo, foi desenvolvido a partir da produção do Sul do Brasil, onde prevalece o sistema de integração. “Os fatores de formação de custo são muito diferentes, não condizem com a nossa realidade em São Paulo”, completa Ferreira. 

Para elaboração do modelo de cálculo dos custos de produção, os pesquisadores se basearam em estudos de ovino e bovinocultura da FMVZ, em estudos que detalham o processo produtivo e as características das suinoculturas do Estado e em métodos de custeio para a agricultura, como o da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). O modelo criado consiste em uma planilha eletrônica, que opera como um software e auxilia na gestão, pela qual o produtor pode adicionar os dados da sua granja como tamanho, número e salário de funcionários, número e fase de vida dos animais e quantidade de ração consumida; o cálculo do custo de produção é fornecido automaticamente. A ferramenta é gratuita e também pode ser utilizada por produtores fora do estado de São Paulo por meio deste link.

Já para o desenvolvimento do ICPS, todas as etapas de produção foram acompanhadas mais de perto, voltadas para análise de mercado, com levantamento de fornecedores e com o acompanhamento dos preços dos insumos. Com auxílio do modelo já criado, calculou-se o custo de produção de duas unidades “imaginárias”, alinhadas à realidade paulista, chamadas de propriedades representativas: uma com 500 matrizes e outra com até 2 mil.

“Todo mês é calculado o custo de produção dessas granjas usando a ferramenta de custo e, a partir de análises, tem-se o índice entre a variação de um período e outro.” Com o custo de mês para cada granja gera-se o informativo de custo, com as movimentações do mercado no mês: o informativo mensal. As edições do informativo são divulgadas no site do LAE e enviadas por e-mail aos usuários cadastrados, e trazem informações acerca do cenário da suinocultura no Estado, o que permite o acompanhamento constante dos preços dos insumos e produtos usados na produção e ainda auxilia análises das variações desses preços.

Um dos principais benefícios das ferramentas é o caráter pedagógico, ao passo que dá estímulo e autonomia para que os produtores gerenciem suas granjas e se profissionalizem no setor – Foto cedida pela pesquisadora

“A suinocultura paulista enfrenta diversos desafios, devido às particularidades da produção da região, e grande parte deles está relacionada ao gerenciamento da atividade e ao uso estratégico dos fatores de produção, o que demonstra a importância do fornecimento de ferramentas e orientações básicas para que os suinocultores possam conhecer as variáveis a serem controladas em seus sistemas produtivos”, afirma Laya. Para a pesquisadora, um dos principais benefícios das ferramentas é o caráter pedagógico, ao passo que dá estímulo e autonomia para que os produtores gerenciem suas granjas e se profissionalizem no setor.

E o futuro?
Com o controle dos custos e ciente das movimentações do mercado, os produtores têm chances de fazer melhores negócios e, quem sabe, investir no mercado futuro, onde compra e venda são feitas com pré-preços, visando a uma data futura, como a bolsa de ações. A pesquisadora conta que os próximos passos são pensados na utilização dessas ferramentas para promoção da entrada dos suínos no mercado futuro, o que expande o impacto da pesquisa na área agroindustrial de suínos. “Isso pode gerar um retorno do investimento da sociedade em nossa Universidade”, afirma. 

Mais informações: e-mail layakannan@usp.br, com Laya Kannan

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